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Formação

Pegue o cobertor!

Estou em Campo Limpo Paulista fazendo um Pós Graduação em Música Ritual. Somos em 9 pessoas, e somos os primeiros do Brasil em um pós deste tipo. Cada um de nós veio de um estado e aqui temos mineiro, capixaba, cearense, paranaense, paulista, carioca, um frei alemão que mora em Teresina e eu gaúcha. Queria relatar uma das diversas experiências maravilhosas que vivi aqui.

Convivendo com pessoas diferentes de nós, com o outro, nos deparamos com o que somos, com os nossos limites, com nossa cultura. Tenho descoberto muitas características minhas nestes últimos dias e tenho repensado em muitos detalhes do meu jeito de ser. É como se o outro fosse uma lanterna mostrando os meus cantos escuros.

Alguns de nós estamos nos hospedando em uma casa de irmãs, e compartilhamos o café e a janta. Nossas aulas são das 8h às 20h30, e levamos certo tempo de deslocamento até a faculdade onde são ministradas nossas aulas (que mereceriam um artigo à parte). Desde o primeiro dia surgiu o costume de fazermos um Sarau após a janta, de ficarmos juntos na sala tocando canções religiosas, populares.

Em uma destas noites fizemos uma sopa de Capeleti (um prato conhecido nosso, mas desconhecido para meus colegas). Após a sopa nos deslocamos para a sala. Nesta noite estávamos em menos pessoas na casa. João pegou seu violão, Érica separou a máquina para gravar e Frei Adolfo Temme pegou suas partituras e sua flauta. Eu, cansada, olhei para eles e disse: “Estou com frio e sono. Vou dormir! Boa noite!” Frei Adolfo, um alemão de 72 anos olhou para mim e disse: “Pegue o cobertor e venha!” Eu realmente não esperava aquela resposta e fiquei imóvel. Frei Adolfo pouco fala conosco e eu jamais esperava escutar aquilo dele mais de 23h. O frei pensa muito, compõe muito, observa muito, fala com muita calma. É um senhor que me impressiona a cada instante. Sabe mexer no celular muito bem, edita muito bem suas partituras no computador, toca o instrumento que aparecer na sua frente.

Após esta exortação, eu constrangida peguei meu cobertor e fui pra sala. Nosso Sarau durou até o momento que o Frei disse que queria descansar, e dizendo que estava com a alma lavada. Mas não foi um momento qualquer... enrolada no meu cobertor ouvi e algumas cantei junto como: Ave Maria de Gounod, Ave Verum Corpus de Mozart, Ária da 4ª corda de Bach, Amor de Índio de Beto Guedes.

Momento raro, único, especial demais e quase perdi por querer viver meu mundo. Muitas reflexões ainda estão acontecendo a partir do que vivi, mas sei que meu cobertor me fará companhia nos próximos dias.

Michelle Girardi
Preparadora vocal, membro do Tabor e da Pastoral Litúrgica do Vicariato de POA

@migirardi


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