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A CASA DE MARIA

Lc 11,27-28

Felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática.

Maria é para nós protótipo de toda pessoa que busca atuar na vida a palavra de Deus, isto é, ouvir a palavra de Deus e a por em prática. A vida da Senhora dos Anjos foi expressão de entrega, de serviço ao mistério.

Quantas pessoas entre nós que, a exemplo da Senhora dos Anjos, não hesitam em dar um pouco de seu tempo, deixar seus afazeres, ocupações, suas casas para consolar, levar uma palavra de fé e de esperança, para visitar quem precisa e merece ser visitado, porque são os preferidos de Deus. São verdadeiros anjos!

São Lucas nos faz ver, por exemplo, a presteza com que Maria deixa a própria casa e apressadamente subindo as montanhas entra na casa de Isabel. Na figura da casa vemos a caridade de Maria, a alegria de Isabel, venerando a presença do Filho de Deus no ventre materno; ouvimos a louvação da Mãe de Deus pelo reconhecimento da presença do Filho Unigênito de Deus como fruto de seu ventre. A visita de Maria, sua presença é motivo de alegria, de satisfação, de gratidão.

Maria visita! Ela põe em prática a Palavra; ela vive a Palavra!

Não são poucos que, buscando por em prática a Palavra que ouvem, se põem a caminho, a exemplo de Maria, para visitar, para consolar, para se solidarizar, para rezar com quem encontram!

Alargando o nosso olhar, vemos nas nossas cidades não poucas pessoas, famílias que nem casa tem. Vivem em situações de risco, de fratura social. Vivem à margem! Lutando desesperadamente não para simplesmente viver, mas para sobreviver. E para além das dificuldades para ganhar honestamente o pão de cada dia, se veem sem saneamento básico, sem acesso à boa educação, à saúde e, sobretudo não raramente ameaçadas, subjugadas pelo poder de forças paralelas atuantes na sociedade, e especialmente nas periferias.

A casa! Construímos casas pequenas e grandes. Gostamos de estar em casa, de voltar para casa tranquilos, bem. Saímos, viajamos, mas nos sentimos em casa, na nossa casa. Estamos em casa quando na nossa casa.

Gostaríamos de nos sentir sempre em casa como na nossa casa. Gostaríamos e tentamos viver como se estivéssemos por tudo em casa. Assim sem casa não suportamos viver desenraizados, sem uma referência, sem um porto, sem uma casa. Em algum lugar nosso coração deseja estar em casa. Não suportaríamos viver sem sonhos, sem um lugar onde repousar e retomar nas buscas.

Maria dos Anjos, por exemplo, sai da sua casa, entra na casa de sua prima Isabel, permanece na casa por três meses e volta para casa. Maria que sai da casa, entra na casa, permanece na casa e volta para casa. E sabemos que ela deixará tantas vezes a sua casa, e deixará tantas casas! Já deixara a casa paterna para entrar na casa de José. Deixando a casa de Nazaré entra na casa-estábulo em Belém; de Belém entra na casa estrangeira no Egito; da casa do Egito entra na casa de Nazaré; de Nazaré entra na casa de João, o discípulo amado: filho eis tua mãe; e da casa de João em quantas casas não terá entrado essa mulher e mãe no peregrinar com João? Parece sempre estar saindo de casa, entrando em casa e permanecendo na casa por três meses, três dias, três anos... E tudo isso porque ela ouve a Palavra!

E de casa em casa, saindo de casa, entrando na casa, permanecendo em casa, voltando para casa, ela sempre parece estar em casa, mesmo sem casa. Mas como pode essa mulher estar por tudo em casa?

Ela fará de estábulo a sua casa. Nessa casa-estábulo dá à luz ao seu primogênito. No acolhimento da situação, da geração, ali agora, é a casa, e ela está ali toda inteira de corpo e alma. Está em casa e recebe os pastores e os anjos. A casa-estábulo onde os pastores e os anjos se sentem em casa. Eles da casa-estábulo voltam para os céus e os campos; uns cantando e outros cheios de alegria louvando a Deus. O recém nascido a faz estar em casa.

E quando tiver que abandonar a casa de Nazaré para acompanhar o Filho no caminho da Cruz e da morte, habitará a casa da dor e da solidão. A casa da dor no caminho do calvário e aos pés da cruz. Nada mais existe. Somente a dor, a perda, o sofrer. A dor é sua casa e ela a habita e ela aí está de corpo e alma. A casa da solidão ao tomar em seus braços o seu filho único descido da cruz, despido, silenciado, sem respiro, sem vida. A vida de sua vida, a vida que lhe dera a vida, e era a razão de sua vida, agora sem vida nos seus braços. Ela habita a casa da solidão e nela está de corpo e alma. Porque dizemos que habita a casa da dor e da solidão de corpo e alma? Nenhum desespero, nenhum fim, mas repetição silenciosa: faça em mim segundo a tua palavra.

Maria sempre está em casa em toda à parte. Cada lugar é sua casa; em cada situação ela está em casa. Em toda casa que habita e visita ela sempre está em casa. Também na dor, na solidão; sem casa ela está em casa. Ela está em casa de corpo e alma.

Mãe-mulher, habitação de Deus, morada de Deus, a casa de Deus na concepção; ela, mãe feita habitação de Deus, ao dar à luz tornara o mundo dos homens a habitação e a casa de Deus. Ela sabia que em tudo, por tudo, sempre, em todas as situações e lugares habitava a mesma casa: Deus, o amor da Trindade. Como Deus desejoso de habitar e estar por tudo na casa dos homens, era ela desejo de deixar-se habitar no corpo e na alma, toda inteira pelo amor da Trindade.

Nós necessitados de casa, necessitados que estamos de sempre estarmos em casa, somos convidados a perceber no habitar, em tudo e por tudo, a casa do amor da Trindade. Ali nos movemos, existimos e somos. No amor da Trindade estamos sempre em casa, também na dor e no mais completo abandono e solidão. (...)

Irmãos e irmãs, nós sabemos da nossa casa, onde ela se encontra, quem é a nossa casa: n’Ele vivemos, nos movemos e existimos. Nesta casa nos sentimos verdadeiramente em casa. E somente a partir deste se sentir e se compreender em casa, poderemos juntos construir espaços, relações onde todos possam se sentir tranquilos e verdadeiramente em casa.

Deus nos conceda a graça de em tudo e por tudo estarmos em casa, habitando a casa do amor da Trindade; e Maria, nossa mãe, a Senhora dos Anjos, isto é, de todos aqueles e aquelas que em tudo buscam não só ouvir a Palavra de Deus, mas sobretudo pô-la em prática, acompanhe nossos passos todos os dias enquanto caminhamos rumo à casa definitiva. Amém.

 

Dom Jaime Spengler
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre
Vigário Episcopal do Vicariato de Gravataí


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