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Formação

A valorização do tempo

Os gregos viam, no tempo, uma divindade devoradora. Chamavam-na de chrónos. Daí os cronômetros. Sabiam que ele devora e envelhece tudo. Nada escapa à sua fome devoradora. Parece não haver volta. Conseqüentemente tentavam superá-lo pela reencarnação. Seria assim como o sol. Põe-se no fim do dia, mas volta no dia seguinte.


Não passou, porém, desapercebido, entre os homens, o valor humano do tempo. Os cristãos viam nele, pela encarnação do Verbo, o kairós: é dom e tarefa. É preciso encher o tempo. Não deixá-lo apenas na condição de número de movimento. Existe um ritmo que deve ser observado. Sente-se premente necessidade de unir tempo e homem. Fala-se, por isso, de biorritmo. Retrata o homem, para corresponder ao seu ritmo interior.


A preocupação do Cristianismo não foi com o espaço, que junto com o tempo, constitui as coordenadas da vida. O espaço é externo ao homem.A questão Galileu é uma disputa entre cientistas. Mas o tempo é interior. A Revelação lhe traz um significado novo e um dinamismo repleto de graça e de realização.


A civilização ocidental tenta cronometrar tudo pelo movimento exterior, mais que pela pulsação interior. Torna o ser humano escravo do tempo. Conseqüentemente o estressa. É certo que, hoje, a concepção do tempo não tem nada a ver com a divindade pagã dos gregos. Contudo, as condições de vida são tais que o homem criou-se um verdadeiro senhor, ou até um verdugo.Está sempre correndo, nervoso. Sempre com pressa, com medo de atrasar. Ao contrário do que se dizia do ateísmo, dividido em teórico e prático, aqui temos uma idolatria não teórica, mas prática. Não conseguimos livrar-nos dela. Cobra diariamente seu tributo de vassalagem.


Falar do tempo, como Senhor, é envolver-se numa atividade estressante. Somos escravos do nosso próprio planejamento e, conseqüentemente, do trabalho. Para fugir desta idolatria e escravidão, a religião, desde tempos remotos, introduziu um dia por semana para o descanso. É, ao mesmo tempo, o dia de Deus. O Cristianismo o chama “Dia do Senhor”, o Domingo. Sua função é libertar o homem da escravidão do tempo e, por isso, da opressão do trabalho, proporcionando-lhe vida mais plena, ou melhor dito, garantindo sentido para sua vida. Lembra a criação divina, com o descanso ao sétimo dia, celebra a ressurreição de Cristo; reúne a família, proporciona lazer e antecipa a eternidade.


A Igreja acrescenta-lhe outras festas para alagar esta dimensão. Quer preencher todo o ano com vida e com fé.Celebra diariamente os mistérios da salvação. É libertação da escravidão do tempo, fazendo com que a vida valha mais que a atividade produtiva. Destaca o relacionamento com Deus, com o próximo e com a natureza. Tempo para o cristão é kairós, o que equivale à chance de crescimento na fé, na esperança e na caridade, até chegar à plenitude da maturidade de Cristo.


Descobrindo o verdadeiro sentido do tempo, não o tiramos da esfera religiosa e sagrada, mas o envolvemos totalmente pelo mistério de Deus. É no tempo que Deus se manifesta.Transforma os movimentos em História da salvação. O ano litúrgico não só fala de Deus, mas também nos aproxima dele. É caminho para Deus. Mais que um sinal estático, como os demais símbolos religiosos, o tempo conduz à salvação e à vida. Não o dessacralizamos para reduzi-lo ao número de movimentos, mas o vemos à luz da fé como espaço a ser preenchido com vida cristã. O tempo humano tem um peso de eternidade.

Dom Dadeus Grings

Fonte: www.arquidiocesepoa.org.br


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