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A visão bíblica

Além dos símbolos que se apresentam ou foram assumidos do universo, tanto material como cultural, a Tradição ocidental nos legou um patrimônio religioso de primeira grandeza. Reconhecemo-lo como Sagrada Escritura. Pela importância que se lhe atribui recebeu o nome por antonomásia de Bíblica, o que, em grego, indica “os livros”. Contam-nos uma História muito misteriosa, de diálogo e atuação de Deus com a humanidade. Não só se acolheu esta “Escritura” como Sagrada, mas se a reconhece como a própria Palavra de Deus. Por ela Deus, em pessoa, fala numa linguagem humana. Entrou na cultura dos homens, especificamente na cultura semita do Médio Oriente, e, mais concretamente, na cultura judaica. Fala-se de uma Aliança de Deus com seu Povo.
A leitura da Bíblia não se enquadra no contexto das descrições históricas. Não visa matar curiosidade acerca de acontecimentos do passado. Seu objetivo é proporcionar um contato com Deus. Por isso se fala de uma leitura orante da Bíblia. Quer-se colher nela o que Deus tem a nos dizer, não propriamente acerca de um passado longínquo, mas na situação concreta em que vivemos, ou seja, no aqui e agora. Por isso não nos refere apenas ao contexto histórico de personagens do passado, mas nos põe na presença de Deus, presente e atuante entre nós, tornado acessível pela leitura bíblica.
Contudo, para entender o texto bíblico, faz-se necessário colocá-lo no contexto em que foi exarado. Reconhecemos que foi Deus quem inspirou sua elaboração. É o mesmo Deus quem, hoje, no-lo dá a entender, na nossa situação. Por isso, a primeira atitude frente ao texto é colocar-se conscientemente na presença de Deus, pela fé. Ali percebemos e ouvimos concretamente sua vontade salvífica. Ali Ele atua entre nós.
É preciso evitar alguns riscos, que poderiam ser fatais na interpretação do texto sagrado. O primeiro está na posição a ser tomada. O risco é duplo: de anacronismo, ao querermos julgar o passado com critérios de hoje; e o arcaísmo, se pretendêssemos transpor o passado, inalteradamente, para os tempos atuais, como se ele constituísse o critério último e a forma perfeita de vida. Acolhemos a evolução que, ao longo dos tempos, tem sinais próprios de atuação humano-divina. Falamos dos sinais dos tempos. Evitamos, assim, o fixismo que, em Parmênides, negava toda mudança; e o relativismo que, segundo Heráclito, impedia a constatação da identidade, em meio às transformações. Na biologia isto se retrata pela atitude de enfrentar, de um lado, o fixismo e, do outro lado, o evolucionismo, para entender o creacionismo.
Temos, neste contexto histórico, outro desafio a ser superado. É o ponto da observação. A partir dele olharemos e entenderemos o passado e o futuro. Este ponto nos oferece três possibilidades de visão: uma visão retrospectiva, olhando para o passado; uma visão prospectiva, projetando o futuro; e uma visão retrospectiva inversa, a partir do ponto em que nos situamos, olhando para o passado, para acompanhar seus acontecimentos como se entrássemos na sucessão cronológica. Em outras palavras, não olhamos simplesmente para trás, mas, a partir deste olhar, reatamos o passado para acompanhar seu desenvolvimento.
O problema que se coloca é, pois, onde situar-nos para começar a entender a Sagrada Escritura. Evidentemente não pode ser no momento presente, ou seja, no contexto do Terceiro Milênio do Cristianismo. É preciso colocar-se na perspectiva de quem escreveu o texto sagrado. E este alguém é duplo: Deus, como Autor principal, tanto na origem do texto como na sua interpretação ao longo dos tempos.

Dom Dadeus Grings

Fonte: www.arquidiocesepoa.org.br


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